As mudanças na sociedade sempre serão mais bem percebidas de maneira retrospectiva do que no presente, ou seja, o “depois” permite melhor racionalização do que o “durante”. A velocidade das mudanças atuais coloca um novo componente dado o volume assombroso, criando um gargalo na condição de processamento.
Com a descentralização da produção das informações, um indicador quantitativo duvidoso passou a ser o validador de credibilidade, ou seja, receber a mesma informação de diferentes fontes, pode se tornar de forma equivocada como um elemento de credibilidade.
Existe a proliferação de informações inúteis e mal intencionadas, ainda se carece de legislação estruturada, com maturidade e acúmulo de discussões sobre a geração e regulação de conteúdos falsos.
O mais atento pode dizer que este aspecto era o fio condutor das estratégias nazistas de repetir a mentira várias vezes, levaria a ser considerada como verdade, devidamente incorporada nas estratégias políticas eleitoreiras. A Informação, sem a análise humana, sem a reflexão que a compreenda, contextualize e use adequadamente, é inútil para o crescimento intelectivo do sujeito e a tomada de decisão.
Em paralelo, o cenário da pandemia acelerou a intensidade de utilização das redes sociais as quais foram incorporadas as rotinas das pessoas estimuladas pela necessidade e pelos organismos públicos como meio único para o acesso à educação, saúde e cidadania.
A internet transitou da condição de exceção para regra e está tornando as pessoas mais críticas e seletivas.
Pesquisas realizadas em cenários antes da pandemia, relacionadas a digitalização da sociedade já apontavam que o Brasil apresenta altos índices de utilização de internet, com parcela significativa voltada a participação em redes sociais. A condição de protagonismo com autonomia para criação de conteúdo, rapidez na divulgação de informações explicam a alta adesão.
Positivamente, emergiu e está em movimento a pressão social para coibir práticas ilegais nas eleições como boca de urna e compra de votos.
As novas condutas impostas pela convivência com a pandemia alteraram os comportamentos sociais. As reuniões presenciais serão limitadas ao extremamente essencial, contrárias as estratégias de busca de apoio em grande escala.
Para os pleiteantes, impõe-se a necessidade de domínio das tecnologias sociais, com a geração de conteúdos apropriados e estratégicos. Esse será o principal desafio, apresentar propostas com conteúdos de qualidade que possibilitem conseguir seguidores que observem que as práticas dos políticos possam efetivamente melhorar a sua vida.
Aqueles que irão defender as posições públicas deverão expor o rol de ações e atividades que desenvolveram de maneira transparente e inconteste, sendo que as respostas deverão ser vestidas de elementos técnicos. A pandemia elevou o grau de complexidade nas discussões, não sendo raros aqueles que inclusive, incorporaram elementos de metodologia científica aos discursos.
O cenário mostrou que os líderes públicos devem estar preparados para atividades de planejamento, de organização de recursos, de logística, de liderança, de personalidade, e lidar cm situação complexas, as quais envolvem diferentes variáveis de forma simultânea.
As lembranças das perdas estarão latentes no eleitorado implicando em maior grau de desconfiança nos políticos no momento de realização dos pleitos eleitorais, acentuada pela internet, um instrumento que permite a rápida recuperação de informações, o domínio e a arquitetura do contexto vão fazer a diferença.
Trabalhar a comunicação em larga escala, transpassando os limites de áreas, nas quais as zeladorias e pequenas obras são o mote principais e demonstrar domínios técnicos de temas transversais será o elemento divisor entre vitoriosos e competidores. Uma pessoa na Vila Augusta não vai simpatizar por um candidato que reivindica autoria de um asfalto na Vila Nova Cumbica, por exemplo e vai rotular como velha política.
A sociedade avançou em maturidade política e reconhece que as funções de zeladoria são derivadas de ações do executivo, não qualificando os postulantes aos cargos do legislativo, os quais deverão mostrar domínio para situações extremas como ocasionadas pela pandemia.
Devanildo Damião
Mestre e Doutor em gestão tecnológica
Pesquisador da Universidade de São Paulo
Coordenador Universitário de curso de administração.








