28.7 C
Guarulhos
quinta-feira, fevereiro 19, 2026

Recorde de mortes no trânsito expõe limite das políticas atuais

spot_img
spot_img

O Brasil voltou a registrar o maior número de mortes no trânsito em oito anos, segundo estudo realizado por universidades brasileiras, com apoio da Vital Strategies, a partir de dados do Ministério da Saúde. Para a Federação Nacional da Inspeção Veicular (FENIVE), os números indicam que as políticas atuais seguem focadas na reação ao acidente – e não na prevenção do risco – ao manter a maior parte da frota circulando sem avaliação técnica periódica.

O País encerrou 2024 com mais de 37 mil mortes no trânsito, resultado que interrompe a trajetória de queda observada em anos anteriores e recoloca o tema da segurança viária no centro do debate público. A maior parte das análises tem se concentrado em fatores como comportamento do condutor, excesso de velocidade e infraestrutura das vias.

Na avaliação do engenheiro mecânico Daniel Bassoli, diretor executivo da FENIVE, esse recorte deixa de lado um componente estrutural importante, que é a condição técnica dos veículos. Ele lembra que hoje, milhares de automóveis, motocicletas, vans, ônibus e caminhões circulam diariamente sem qualquer verificação periódica de itens essenciais à segurança, como freios, pneus, suspensão, iluminação e integridade estrutural.

A legislação brasileira prevê inspeções apenas em situações pontuais, como alterações de características ou regularização após sinistros. Isso faz com que falhas mecânicas sejam identificadas de forma tardia, muitas vezes apenas depois de um acidente. “Nesse modelo, o Estado passa a conhecer o risco quando já há vítimas, perícia e impacto sobre o sistema de saúde”, pontua Bassoli.

Segundo ele, esse contexto ajuda a explicar a repetição de sinistros graves, especialmente em um cenário de frota envelhecida, crescimento acelerado das motocicletas e uso cada vez mais intenso de veículos para trabalho, transporte de passageiros e entregas. “O Brasil estruturou sua política de segurança viária para reagir ao acidente, não para evitar que ele aconteça. Sem um monitoramento regular da frota, como era previsto inicialmente no Código de Trânsito Brasileiro (CTB), o risco mecânico permanece invisível até o momento da colisão”, avalia.

O diretor da FENIVE observa que países que conseguiram reduzir de forma consistente as mortes no trânsito incorporaram a inspeção veicular como instrumento permanente de prevenção, integrado à fiscalização, à educação e à engenharia de tráfego. “No Brasil, esse componente segue fora do núcleo das políticas públicas, mesmo diante de recordes sucessivos de óbitos. As notícias de acidentes graves provocados por caminhões sem freio, por exemplo, são frequentes e já estão até banalizadas.”

Bassoli enfatiza que a redução sustentável das mortes no trânsito exige uma abordagem sistêmica, capaz de atuar antes do sinistro. “Enquanto a frota circular sem avaliação técnica regular, o País continuará lidando com as consequências do acidente, e não com suas causas”, afirma.

De acordo com ele, o cenário impõe uma reflexão urgente sobre quais medidas estruturais o Brasil está disposto a adotar para interromper esse ciclo de mortes evitáveis. “A redução sustentável dos sinistros exige políticas públicas efetivas nas três esferas de governo, integração entre órgãos de trânsito, saúde e fiscalização, uso de ferramentas tecnológicas modernas para monitoramento da frota e fortalecimento da inspeção técnica como política permanente de Estado.”

Além disso, Bassoli ressalta que é fundamental ampliar a participação da sociedade no debate sobre segurança viária, reconhecendo que veículos seguros são parte indissociável da proteção à vida. “Não se trata apenas de punir depois do acidente, mas de criar mecanismos que impeçam que ele aconteça. A prevenção precisa deixar de ser discurso e se tornar prioridade institucional”, reforça o diretor.

spot_img

Em alta

spot_img
spot_img

Notícias relacionadas