Brasileiros querem viver melhor sem sair de casa, e isso está mudando o mercado imobiliário

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Nos últimos anos a casa passou a concentrar funções que antes estavam espalhadas pela cidade: trabalho, lazer, atividade física, convivência, serviços e momentos de desconexão, deixando de ser apenas o local de descanso no final do dia. Essa mudança de comportamento vem influenciando diretamente o mercado imobiliário e impulsionando uma nova geração de empreendimentos desenhados para atender necessidades que vão muito além da habitação.

Essa transformação não é percebida apenas por quem projeta os empreendimentos. Ela também aparece nos números do mercado. Pesquisa nacional realizada pela Brain Inteligência Estratégica em novembro de 2025, com 1.200 entrevistados de todas as regiões do país, revelou que a intenção de compra de imóveis atingiu 50%, o maior patamar da série histórica iniciada em 2019. 

Mais significativo do que o índice em si são as razões que impulsionam essa decisão. Segundo o estudo, 55% das intenções de compra estão associadas a transições de vida, como sair do aluguel, conquistar independência ou mudar de localidade. Outros 29% estão relacionados ao desejo de upgrade da moradia, motivado pela busca por mais espaço, conforto, modernização e benefícios que atendam melhor às necessidades das famílias. Os dados mostram que o mercado imobiliário está sendo impulsionado menos por fatores financeiros e mais pela procura por uma forma de viver que acompanhe as mudanças da rotina contemporânea. 

Essa evolução também aparece nos principais eventos internacionais de arquitetura e design. Durante a Milan Design Week e o Salone del Mobile, considerados as maiores vitrines globais do setor, temas como hospitalidade, funcionalidade, personalidade e conexão emocional estiveram entre os destaques. 

Segundo os organizadores, a edição de 2026 reuniu mais de 300 mil visitantes de cerca de 150 países e evidenciou uma valorização crescente de ambientes capazes de oferecer mais conforto, integração e significado à vida cotidiana.

Para a arquiteta e gerente de design da LAVVI, Ariela Barbosa Venditto, a redefinição do morar está diretamente ligada às novas prioridades das famílias urbanas. “Hoje, as pessoas valorizam cada vez mais a conveniência. Em uma cidade como São Paulo, onde tempo e mobilidade são questões importantes, ter acesso a serviços, atividades esportivas e facilidades dentro do próprio condomínio representa um ganho significativo para a rotina das famílias. O empreendimento deixa de ser apenas um local de moradia e passa a funcionar como uma extensão da vida cotidiana.”

Esse novo olhar tem levado incorporadoras a revisarem a concepção dos empreendimentos desde as primeiras etapas de desenvolvimento. Na Lavvi, elementos ligados à hospitalidade, ao esporte e à eficiência cotidiana passaram a ocupar papel estratégico na definição das áreas comuns.

Entre as soluções que vêm ganhando espaço estão serviços de concierge e mensageria, acompanhamento esportivo, áreas voltadas aos pets, iniciativas relacionadas ao autocuidado e parcerias que ampliam a oferta de facilidades dentro do próprio condomínio. A proposta acompanha um movimento internacional que busca reunir diferentes atividades em um único endereço.

“O que observamos é uma mudança na percepção de valor. As pessoas passaram a priorizar soluções que economizam tempo e tornam a agenda diária mais eficiente. Hoje, o bem-estar também está relacionado à capacidade de resolver diferentes demandas sem precisar atravessar a cidade”, explica Ariela.

As atividades esportivas também ocupam posição de destaque nessa nova dinâmica. Modalidades como beach tennis e tênis ganharam protagonismo nas áreas comuns, acompanhando o interesse crescente por hábitos saudáveis e por ambientes que incentivem a interação entre vizinhos.

Não por acaso, as quadras esportivas têm se tornado presença constante nos lançamentos da Lavvi. De acordo com levantamentos internos da incorporadora, os empreendimentos mais recentes contam com esse diferencial, refletindo uma demanda cada vez maior por espaços voltados à prática esportiva e ao convívio social. 

Enquanto o comportamento evolui, a estética acompanha novas referências globais. Um dos movimentos mais marcantes observados na Feira de Milão foi o retorno das cores quentes e da expressividade visual. Tons de marrom, caramelo, terracota, vinho e mostarda voltam a ocupar espaço em ambientes contemporâneos, substituindo gradualmente a neutralidade extrema que marcou boa parte da última década.

Sofás, poltronas, mesas e luminárias com linhas curvas dominaram os lançamentos exibidos durante o evento, evidenciando uma preferência crescente por composições mais fluidas e convidativas.

As linhas retas, que dominaram muitos ambientes durante anos, dão espaço para curvas e formas mais suaves. É uma linguagem que conversa diretamente com esse desejo das pessoas por cenários mais confortáveis e agradáveis.

Segundo Ariela, a mudança reflete o desejo de construir ambientes mais autênticos e receptivos. “Estamos vivendo um momento em que os ambientes voltam a ter personalidade. As cores retornam com força e os projetos ganham mais caráter. Ao mesmo tempo, procuramos interpretar essas referências dentro da realidade brasileira e da essência de cada empreendimento, sem simplesmente reproduzir o que acontece em outros países.”

Outro aspecto observado internacionalmente é o resgate de referências da década de 1970. Cores marcantes, materiais naturais, texturas aconchegantes e elementos que despertam sensações de acolhida reaparecem reinterpretados sob uma ótica contemporânea, reforçando uma busca crescente por autenticidade e expressão individual.

A arquiteta destaca ainda que arquitetura, design e moda mantêm uma relação histórica de influência mútua. Não por acaso, muitas das referências apresentadas atualmente em eventos internacionais dialogam diretamente com movimentos observados nas passarelas, reforçando o caráter cíclico das transformações estéticas.

Ao mesmo tempo, a velocidade de circulação das informações reduziu significativamente a distância entre o que é apresentado nos grandes centros mundiais e sua aplicação no Brasil. Se antes as novidades demoravam anos para chegar ao país, hoje profissionais e consumidores acompanham praticamente em tempo real os principais lançamentos globais.

“O Brasil possui características próprias, tanto culturais quanto climáticas. Por isso, mais importante do que reproduzir uma direção estética é interpretá-la de forma coerente com a nossa realidade e com a essência de cada empreendimento.” Para Ariela, o futuro do setor está menos ligado a modismos e mais à capacidade de compreender as transformações da vida urbana.

“Mais do que acompanhar os movimentos do mercado, nosso desafio é compreender como as pessoas desejam viver. Quando conseguimos unir funcionalidade, conforto, personalidade e eficiência cotidiana, criamos ambientes que permanecem relevantes ao longo do tempo e fazem sentido para quem os utiliza diariamente.”

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