Quem vai cuidar do Brasil que envelhece?

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O Brasil vive uma das maiores transformações demográficas de sua história. A cada ano, cresce o número de pessoas idosas e, com ele, aumenta também a necessidade de cuidados de longa duração. Segundo o IBGE, a população com 60 anos ou mais já ultrapassa 33 milhões de brasileiros, e a tendência é que esse contingente continue crescendo nas próximas décadas.

Essa mudança exige um novo olhar sobre o envelhecimento. Mais do que ampliar a oferta de serviços de saúde, será necessário fortalecer uma rede de cuidados capaz de garantir qualidade de vida, autonomia e dignidade às pessoas idosas. Portanto, investir na formação e valorização dos cuidadores não representa apenas um compromisso humanitário, mas uma estratégia inteligente para toda a sociedade.

Durante muitos anos, o cuidado foi tratado apenas como uma responsabilidade familiar. Na prática, porém, sabemos que essa tarefa envolve desafios físicos, emocionais e financeiros que nem sempre podem ser enfrentados sem orientação. Quando o cuidador não recebe apoio adequado, aumentam as chances de erros na administração de medicamentos, riscos de quedas, internações evitáveis, agravamento de doenças crônicas e sobrecarga emocional tanto para quem cuida quanto para quem é cuidado.

Diversos estudos internacionais demonstram que programas de capacitação para cuidadores contribuem para reduzir hospitalizações, retardar a institucionalização de pessoas idosas e melhorar o manejo de doenças crônicas, especialmente em casos de demências, como o Alzheimer. Esses resultados significam mais qualidade de vida para os idosos, maior segurança para as famílias e utilização mais eficiente dos recursos públicos destinados à saúde.

O impacto econômico também merece atenção. Estimativas da Organização Internacional do Trabalho (OIT) indicam que a chamada economia do cuidado representa um dos setores com maior potencial de geração de empregos nas próximas décadas. Ao mesmo tempo, a Organização Mundial da Saúde (OMS) defende que sistemas integrados de cuidados de longa duração são fundamentais para responder ao rápido envelhecimento populacional observado em diversos países.

No Brasil, grande parte desse cuidado ainda é exercida de forma informal por familiares, principalmente mulheres, que muitas vezes precisam reduzir sua jornada de trabalho ou abandonar suas carreiras para acompanhar um parente idoso. Essa realidade produz impactos econômicos para as famílias e para o desenvolvimento do país, ao reduzir renda, produtividade e oportunidades profissionais.

Por isso, quando falamos em investimento social, estamos falando de preparar pessoas para cuidar melhor, oferecer suporte emocional aos cuidadores, disseminar conhecimento técnico e construir políticas públicas que reconheçam o cuidado, direito e proteção à pessoa idosa de forma integral e integrada.

Essa visão amplia o entendimento de que cuidar não é apenas atender às necessidades de quem envelhece. Cuidar é prevenir, promover saúde, preservar autonomia e fortalecer vínculos familiares. É a garantia de qualidade de vida. É um investimento cujo retorno beneficia toda a sociedade.

Foi justamente com esse propósito que nasceu o 1º Fórum Itinerante de Cuidadores de Pessoas Idosas: Desafios, Ação e Transformação, promovido pela Comissão de Assistência Social da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social (Bunkyo), em parceria com a Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania da Prefeitura de São Paulo.

O objetivo é dar voz ao cuidador. É poder fazer a escutatória dos seus desafios em relação a família do cuidando, do seu autocuidado, em relação ao próprio cuidando e sobre a sua profissão/regulamentação, promover a troca de experiências e contribuir para a construção de uma cultura que reconheça o valor estratégico do cuidador. Precisamos compreender que cuidar de quem cuida é uma das formas mais eficientes de cuidar de toda a sociedade.

Quando fortalecemos os cuidadores, fortalecemos as famílias. Quando prevenimos o agravamento de doenças, fortalecemos o sistema de saúde. E quando valorizamos o envelhecimento com dignidade, construímos um país mais humano, solidário e preparado para o futuro.

O envelhecimento da população brasileira não deve ser encarado como uma crise, mas como uma transformação social que exige planejamento e compromisso coletivo da família, sociedade e do Estado. Se desejamos construir cidades mais inclusivas, sistemas de saúde mais sustentáveis e comunidades mais solidárias, precisamos reconhecer que o cuidado não é um custo. É um dos investimentos sociais mais inteligentes que podemos fazer.

*É pedagoga com especialização em Gestão de Políticas Públicas, pós-graduanda em Envelhecimento Humano em Perspectiva Multidisciplinar e presidente da Comissão de Assistência Social da Sociedade Brasileira de Cultura Japonesa e de Assistência Social (Bunkyo)

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