Saúde mental no trabalho exige mais do que campanhas

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Setembro Amarelo abre espaço para discutir o papel das empresas na prevenção, no acolhimento e na gestão dos riscos psicossociais

Mais de meio milhão de brasileiros receberam, em 2025, benefícios por incapacidade relacionados a transtornos mentais e comportamentais. Foram 546.254 benefícios concedidos pela Previdência Social, alta de 15,66% em relação a 2024. O número reforça a dimensão que a saúde mental ganhou na agenda das empresas e da segurança e saúde no trabalho.

O cenário coincide com uma mudança importante na NR-1. Desde 26 de maio de 2026, os fatores de risco psicossociais relacionados ao trabalho passaram a integrar expressamente o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO). Entre os exemplos citados pelo Ministério do Trabalho estão excesso de demandas, assédio e falta de suporte ou apoio no trabalho.

A aplicação das novas regras, porém, está sendo discutida no Supremo Tribunal Federal. Em agosto, o Plenário confirmou, por unanimidade, a suspensão por 90 dias de multas e outras sanções relacionadas aos dispositivos sobre riscos psicossociais. A decisão não suspendeu as diretrizes gerais da NR-1, que continuam válidas.

É nesse contexto que o Setembro Amarelo ganha espaço no ambiente corporativo. A campanha amplia a discussão sobre prevenção ao suicídio e valorização da vida, mas a saúde mental não deve entrar na pauta das empresas apenas em setembro.

O trabalho também precisa ser observado

A Organização Mundial da Saúde recomenda que a promoção da saúde mental no trabalho combine mudanças organizacionais, capacitação de gestores e trabalhadores e mecanismos de apoio a quem enfrenta problemas de saúde mental.

“Quando falamos em saúde mental no ambiente de trabalho, a empresa precisa olhar além das ações pontuais. É importante avaliar as condições e a organização do trabalho, identificar fatores que podem representar riscos psicossociais e criar caminhos para que o trabalhador possa buscar apoio quando necessário”, afirma Francielli Vitali, head de Negócios da ESSET, empresa do grupo Employer.

Sobrecarga, relações de trabalho inadequadas, assédio e falta de apoio são alguns dos fatores que podem ser considerados nessa avaliação. Isso não significa estabelecer uma relação direta entre trabalho e suicídio, que é um fenômeno multifatorial. A responsabilidade da organização está em reconhecer os fatores relacionados ao trabalho que estão sob sua gestão e atuar sobre eles.

Liderança não é diagnóstico

Gestores e colegas podem ser os primeiros a perceber mudanças de comportamento, como isolamento, alterações significativas na rotina, queda repentina de desempenho ou manifestações de sofrimento.

Isso não significa tentar identificar um diagnóstico. A orientação é abrir espaço para uma conversa reservada, ouvir sem julgamentos e conhecer os canais de apoio disponíveis. “O gestor não precisa e não deve assumir o papel de um profissional de saúde. O que ele precisa é estar preparado para perceber mudanças de comportamento, abrir espaço para uma conversa respeitosa, ouvir sem julgamentos e saber quando é necessário encaminhar aquela pessoa para um atendimento especializado”, explica Francielli.

Situações que exigem avaliação clínica devem ser encaminhadas para profissionais e serviços especializados. A empresa pode acolher e orientar, mas não substitui o atendimento de saúde.

Prevenção precisa entrar na rotina

A gestão dos riscos psicossociais exige que a organização observe como o trabalho é planejado, organizado e executado. Carga e ritmo de trabalho, apoio das lideranças, relações profissionais, autonomia e situações de assédio estão entre os aspectos que podem ser considerados.

“Prevenir também significa olhar para aquilo que a organização pode mudar. Sobrecarga, relações de trabalho inadequadas, assédio, falta de apoio e outros fatores psicossociais precisam ser identificados e tratados dentro daquilo que cabe à gestão da empresa”, destaca a especialista.

Campanhas de conscientização podem ajudar a ampliar o debate, mas precisam estar acompanhadas de ações permanentes.

“Setembro é uma oportunidade para ampliar a conversa sobre prevenção, mas a saúde mental não pode entrar na agenda da empresa apenas nesse período. As ações precisam fazer parte da rotina e estar associadas às condições de trabalho, à preparação das lideranças e aos canais de apoio disponíveis aos trabalhadores”, afirma Francielli.

Entre as medidas estão a capacitação de gestores, a divulgação dos canais de apoio, o estabelecimento de procedimentos de encaminhamento e o acompanhamento dos fatores de risco identificados.

O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito pelo telefone 188, 24 horas por dia, em todo o território nacional. “Para as empresas, o Setembro Amarelo pode ser o ponto de partida para uma discussão que precisa continuar ao longo do ano sobre como identificar e reduzir riscos psicossociais, preparar as lideranças e criar condições para que os trabalhadores encontrem apoio quando precisarem”, finaliza a executiva.

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