Os números de 2026 mostram uma cidade mais exportadora. O próximo desafio é transformar essa força comercial, industrial e logística em uma estratégia permanente de internacionalização.
Guarulhos vive um momento que merece atenção especial de empresários, lideranças políticas e instituições de desenvolvimento econômico. Os resultados da balança comercial de janeiro a agosto de 2026 mostram uma transformação importante na inserção internacional do município.
No período, Guarulhos alcançou aproximadamente US$ 2,36 bilhões em exportações e US$ 2,15 bilhões em importações, movimentando mais de US$ 4,5 bilhões em comércio exterior e registrando saldo positivo superior a US$ 208 milhões. Os dados municipais têm como referência o Comex Stat/MDIC, cuja base estava atualizada em 4 de setembro.
Mais importante que o número absoluto é a velocidade dessa transformação. As exportações guarulhenses cresceram aproximadamente 46% em relação ao mesmo período de 2025, enquanto as importações avançaram em ritmo muito menor. Isso permitiu ao município sair de uma condição deficitária no período comparável de 2025 para um superávit em 2026.
Para termos dimensão desse desempenho, no conjunto do Brasil as exportações cresceram 10,3% entre janeiro e agosto de 2026, chegando a US$ 250,86 bilhões, enquanto as importações aumentaram 6,1%. (Balança Econômica) Ou seja, o crescimento das exportações de Guarulhos foi significativamente superior à expansão nacional.
Uma potência industrial e logística
Depois de mais de 30 anos trabalhando com comércio exterior, logística internacional, desenvolvimento de negócios e cadeias globais, aprendi que uma balança comercial não deve ser analisada apenas pelo saldo entre exportações e importações.
Precisamos entender o que vendemos, o que compramos, para quem vendemos, de quem compramos e quais riscos estão por trás dessas relações.
E é exatamente nesse ponto que os números de Guarulhos se tornam ainda mais interessantes.
A pauta comercial mostra uma cidade integrada a cadeias industriais sofisticadas. Entre os produtos presentes nas exportações estão transformadores elétricos, motores, produtos farmacêuticos, turboreatores e turbopropulsores, componentes automotivos e outros produtos industriais. Nas importações encontramos máquinas, equipamentos, componentes aeronáuticos e automotivos, medicamentos e instrumentos de precisão.
Guarulhos, portanto, não é apenas um ponto de passagem de mercadorias. Somos parte de cadeias globais de produção.
Essa condição é reforçada pelo posicionamento alcançado em 2026: Guarulhos aparece como a 3ª maior cidade exportadora do Estado de São Paulo e a 12ª do Brasil. Nas importações, ocupa a 8ª posição paulista e a 20ª nacional.
O mundo mudou, e Guarulhos precisa perceber essa mudança
Existe, entretanto, uma questão ainda maior.
Ao longo da minha carreira internacional, acompanhei diferentes ciclos de globalização. Durante décadas, empresas organizaram suas cadeias produtivas buscando principalmente eficiência, escala e menor custo.
Hoje, essa lógica mudou.
Tarifas, disputas comerciais, guerras, sanções, segurança energética, tecnologia, nearshoring, friendshoring e resiliência das cadeias de suprimentos passaram a influenciar decisões empresariais.
O próprio desempenho brasileiro mostra essas mudanças. Entre janeiro e agosto de 2026, as exportações brasileiras para os Estados Unidos recuaram 9,7%, enquanto as destinadas à China e à União Europeia cresceram aproximadamente 15%. (Balança Econômica)
Para Guarulhos isso é particularmente importante porque os Estados Unidos são o principal destino externo das exportações municipais, com aproximadamente US$ 543 milhões, e também a principal origem das importações, com cerca de US$ 616 milhões.
Isso significa que uma decisão tomada em Washington, Pequim, Bruxelas, Buenos Aires ou Cidade do México pode produzir efeitos sobre empresas, investimentos e empregos aqui em Guarulhos.
Geopolítica deixou de ser assunto distante. Tornou-se parte da gestão empresarial.
Precisamos transformar comércio exterior em política de desenvolvimento.
É justamente aqui que vejo uma grande oportunidade para nossa cidade.
Guarulhos reúne condições difíceis de reproduzir em outro município brasileiro: forte parque industrial, localização estratégica, acesso às rodovias Presidente Dutra e Fernão Dias, proximidade com o Porto de Santos e, principalmente, o maior aeroporto internacional do país.
Temos os ativos. Precisamos conectá-los em torno de uma estratégia.
Defendo que Guarulhos avance para uma Estratégia de Internacionalização e Comércio Exterior 2030, reunindo poder público, setor empresarial, entidades representativas, universidades e instituições de promoção comercial.
Essa agenda poderia se apoiar em algumas prioridades: criar inteligência permanente de comércio exterior; ampliar o número de empresas exportadoras; diversificar mercados; apoiar pequenas e médias empresas na internacionalização; fortalecer setores industriais nos quais Guarulhos já demonstra competitividade; atrair investimentos internacionais; e posicionar a cidade como hub de logística, comércio e negócios internacionais da América Latina.
Internacionalizar também as pequenas e médias empresas
Existe outro desafio que considero fundamental.
Quando falamos em bilhões de dólares de comércio exterior, podemos transmitir ao pequeno empresário a impressão de que internacionalização é assunto reservado às grandes multinacionais.
Não é.
Uma PME de Guarulhos pode começar sua internacionalização pelo Paraguai, Argentina, Chile ou Uruguai; utilizar uma trading company; participar de programas como o PEIEX; desenvolver distribuidores internacionais; entrar em marketplaces; participar de feiras; ou iniciar uma operação exportadora de maneira gradual.
O papel das instituições é justamente reduzir a distância entre a empresa de Guarulhos e o mercado internacional.
Quanto maior o número de empresas exportadoras, menor será nossa dependência de poucos grandes exportadores e maior será a capacidade de gerar renda, tecnologia, investimentos e empregos qualificados.
De porta de entrada para plataforma internacional de negócios
Costumamos dizer que Guarulhos é uma das principais portas do Brasil para o mundo.
Talvez seja hora de avançarmos nesse conceito.
Guarulhos não precisa ser apenas a porta pela qual o Brasil entra e sai do mundo. Pode ser o lugar onde empresas brasileiras se preparam para conquistar o mundo.
Os números de 2026 demonstram que temos escala. Nossa indústria demonstra que temos competência. Nossa localização demonstra que temos vantagem logística.
Agora precisamos transformar essas vantagens em estratégia.
Depois de décadas atuando no comércio internacional, tenho cada vez mais convicção de que internacionalização não significa simplesmente vender um produto para outro país. Significa preparar empresas, pessoas e territórios para competir em uma economia global cada vez mais complexa.
O desempenho da balança comercial mostra que Guarulhos já está no mapa do comércio internacional.
Nosso próximo desafio é decidir qual posição queremos ocupar nesse mapa nos próximos dez anos.
José Vitorelli – Especialista em Comércio Internacional, Logística e Internacionalização de Empresas.
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