O profissional que falta pode estar dentro da empresa

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Quando uma empresa não consegue preencher uma vaga, a reação costuma ser conhecida: ampliar a busca, rever exigências, procurar novos canais de recrutamento. São medidas legítimas. Mas existe uma pergunta que nem sempre recebe a mesma atenção: parte das competências necessárias poderia ser desenvolvida entre os profissionais que já trabalham ali?

A questão ganhou peso no Brasil. Segundo a Pesquisa de Escassez de Talentos 2026, do ManpowerGroup, 80% dos empregadores brasileiros relatam dificuldade para encontrar profissionais com as habilidades de que precisam. O índice aponta um descompasso persistente entre as demandas das empresas e as competências disponíveis no mercado.

Contratar continuará indispensável em muitas situações. Há funções que exigem conhecimentos específicos ou qualificações que não se desenvolvem de uma hora para outra. Ainda assim, depender exclusivamente de encontrar profissionais prontos significa disputar, repetidamente, um grupo limitado de candidatos.

Desenvolver talentos internamente oferece outra possibilidade. E isso começa por abandonar a ideia de que a experiência de um funcionário se resume ao cargo que ocupa hoje.

Um profissional de atendimento pode conhecer profundamente o cliente e ter potencial para atuar em vendas consultivas. Alguém da operação pode demonstrar capacidade para coordenar processos. Um colaborador experiente pode se tornar referência técnica para os mais novos. Nenhuma dessas transições é automática. Todas exigem preparação e oportunidade.

Também não basta oferecer um catálogo de cursos e chamar isso de desenvolvimento. Aprender um conceito é diferente de conseguir aplicá-lo sob as pressões da rotina.

Uma iniciativa consistente parte de uma necessidade concreta: qual atividade precisa ser executada melhor? Que competências faltam? Como o profissional poderá praticá-las e receber orientação? Se uma equipe comercial precisa melhorar a negociação com clientes, o resultado mais importante não é a quantidade de certificados emitidos, mas a mudança observável na qualidade das conversas.

Nesse processo, a liderança imediata tem papel decisivo. O gestor que abre espaço para novas responsabilidades, acompanha as primeiras tentativas e oferece feedback transformando o aprendizado em experiência. Sem esse apoio, até bons programas podem terminar quando a sala de treinamento é deixada para trás.

Os empregadores brasileiros parecem reconhecer essa direção. Na mesma pesquisa do ManpowerGroup, 44% apontam a qualificação ou requalificação dos próprios colaboradores como estratégia para enfrentar a escassez. O desafio é traduzir essa intenção em trajetórias reais de crescimento.

Isso exige escolhas. Algumas empresas precisarão rever critérios de promoção, criar oportunidades de mobilidade interna e reconhecer habilidades adquiridas na prática. Outras terão de garantir tempo para aprender e investir na retenção de quem se desenvolve. Não faz sentido preparar profissionais para novas responsabilidades e, ao mesmo tempo, fechar as portas para que avancem.

O Fórum Econômico Mundial estima, no relatório Future of Jobs 2025, que 59 em cada 100 trabalhadores precisarão de capacitação até 2030. A projeção é global, não um retrato específico do Brasil, mas mostra por que desenvolver pessoas deixou de ser uma atividade eventual.

A escassez não será resolvida apenas com treinamento. Salários, condições de trabalho, formação educacional e realidade regional também influenciam a disponibilidade de talentos. Contratar de fora, por sua vez, continuará trazendo experiências valiosas.

A oportunidade está em equilibrar as duas frentes. Empresas precisam continuar buscando talentos no mercado, mas podem crescer ainda mais quando conseguem identificar potencial, preparar pessoas e criar oportunidades dentro de casa.

Talvez uma das perguntas mais relevantes para o futuro do trabalho não seja apenas onde encontrar o profissional ideal, mas que condições estamos criando para que ele se desenvolva.

*Ricardo Hilgenberg é especialista em aprendizagem e desenvolvimento corporativo, com experiência internacional e foco na integração entre capacitação de equipes, desempenho e necessidades do negócio.

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