Na mente distorcida de alguns – os mesmos que bradam “bandido bom é bandido morto” –, há uma perigosa conivência com a ideia de que a abordagem policial deve ser diferente para os moradores da periferia e os da zona sul de São Paulo. Ignoram o peso histórico da opressão sofrida pela população negra e carente, acreditando que características como cor da pele ou origem geográfica são suficientes para gerar suspeitas. São também os que defendem a retirada das câmeras corporais dos policiais, desconsiderando os dados claros que mostram como esses dispositivos protegem tanto a sociedade quanto os próprios agentes.
Essa visão é agravada pela perpetuação da falácia do “caso isolado”, como se cada episódio de preconceito, violência excessiva e desrespeito às leis fosse uma exceção, e não reflexo de um padrão estrutural. Governantes que inflamam discursos de ódio apenas aumentam a tensão, incentivando um ambiente de confronto que prejudica a população, e desgasta os próprios policiais da linha de frente, já sobrecarregados por um sistema precário.
É preciso reconhecer que os policiais de rua, frequentemente, são colocados no centro de um sistema que os sobrecarrega emocional e fisicamente. Lidando diariamente com o risco de vida e decisões de alto impacto, muitas vezes atuando sem a preparação emocional necessária. O sistema os transforma em executores de políticas públicas mal desenhadas – ou até inexistentes –, contribuindo para a perpetuação de um ciclo de violência.
Talvez, para alguns comandantes, a estratégia seja simplesmente bater, bater e bater, até que todos entendam quem detém o poder. Mas será que isso é realmente inteligente? Ou estamos apenas criando um círculo vicioso, onde a violência gera mais violência, minando qualquer possibilidade de convivência pacífica e justa? A verdadeira força está em construir soluções que respeitem direitos, promovam igualdade e assegurem segurança para todos – inclusive para os policiais, que precisam de apoio, preparo e respeito para desempenharem suas funções de maneira humana e eficiente.
De fato a violência e o despreparo não têm uma única causa, assim como não há solução mágica. O problema é complexo, envolvendo desigualdades sociais, discursos inflamados, políticas públicas falhas e, acima de tudo, a falta de controle emocional. Esse último ponto é central, já que policiais constantemente expostos a situações de alta pressão precisam tomar decisões rápidas, mas muitas vezes carecem do preparo emocional para lidar com conflitos de forma estratégica e proporcional. A somatória desse despreparo com uma visão da violência como estratégia potencializa batalhas cotidianas, muitas vezes mortais.
Nesse cenário, como especialista em esportes, acredito que programas esportivos, frequentemente vistos como complementares, podem se tornar ferramentas fundamentais na capacitação dos policiais. O esporte não é apenas uma atividade física; ele desenvolve habilidades emocionais essenciais, como autocontrole, resiliência, empatia e trabalho em equipe – qualidades indispensáveis para quem atua na linha de frente da segurança pública.
Por exemplo, as artes marciais, como jiu-jítsu e judô, vão além das técnicas de defesa pessoal. Elas ensinam disciplina, paciência e controle de impulsos. Essas práticas promovem autoconfiança, permitindo que os policiais se sintam mais seguros em suas habilidades e, consequentemente, menos propensos a reações exageradas.
Esportes coletivos, como futebol, basquete ou vôlei, também desempenham um papel importante. Eles fortalecem o senso de coletividade e aprimoram a comunicação entre os integrantes da equipe. Uma atuação coordenada e harmoniosa pode ser decisiva para evitar confrontos desnecessários e garantir abordagens mais equilibradas.
Práticas como yoga e meditação podem ser integradas à rotina policial para ajudar no controle do estresse. Essas atividades são ferramentas poderosas para acalmar a mente, melhorar a concentração e reduzir impulsividades em momentos de alta pressão. Um policial emocionalmente equilibrado toma decisões mais assertivas, promovendo sua própria segurança e a da comunidade.
Atividades como corridas de resistência também são úteis, pois ensinam resiliência física e mental. Treinos de longa distância ajudam a lidar com a exaustão e o estresse de forma controlada, promovendo alívio emocional e melhorando o desempenho geral. Essas práticas fortalecem o corpo enquanto ensinam a importância de persistir diante de desafios.
E para além dos benefícios diretos da prática esportiva para os policiais, uma política pública inovadora que integre o esporte à segurança pública pode aproximar relação entre as forças de segurança e a comunidade.
O esporte pode ainda atuar como ponte entre polícia e sociedade. Patrulhas esportivas, em que policiais organizam atividades em áreas vulneráveis, criam espaços seguros para crianças e jovens, promovendo inclusão social e prevenindo a violência. Nas escolas públicas, policiais podem atuar como instrutores de esporte, reforçando valores como respeito e disciplina por meio da prática esportiva.
Essas ações, somadas a torneios comunitários e programas de mentoramento esportivo, fortalecem os laços de confiança entre policiais e cidadãos, transformando o esporte em uma ferramenta estratégica para uma segurança pública mais humana, eficiente e conectada à sociedade.
Enfim, não tendo uma visão reducionista do grave problema e sem tomar partido de nenhum dos lados, apenas destacando que pela narrativa distorcida imposta por uma parcela da sociedade, somado a uma brutal desigualdade, preconceitos enraizados em nossa cultura, políticas públicas desastrosas que incentivam a violência seletiva, falta de preparo, contingente e estrutura, o resultado é mais violência e letalidade.
Penso, que para além de uma análise complexa do tema, pensar uma direção e uma ferramenta que possa auxiliar em algum momento, também pode ajudar. Ao integrar programas esportivos sistematizados na capacitação policial, não apenas elevamos o desempenho dos agentes, mas também contribuímos para a construção de uma segurança pública mais eficiente e humana. O esporte deixa de ser apenas um complemento para se tornar um aliado estratégico na transformação de um ciclo de violência em uma oportunidade de progresso e reconexão entre policiais e sociedade.
Texto Edu Vela








