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quinta-feira, março 12, 2026

O falso mito da produtividade está travando o B2B de autopeças

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No B2B de autopeças, agendas lotadas, telefone tocando o dia inteiro e notificações constantes no WhatsApp costumam ser vistos como sinônimo de produtividade. A sensação é de movimento permanente, mas movimento não é, necessariamente, avanço. Em muitos casos, essa rotina intensa mascara um problema estrutural, em que o tempo do vendedor é consumido por tarefas operacionais que pouco contribuem para crescimento, margem ou fidelização estratégica.

O desvio começa quando o vendedor se transforma no principal canal para pedidos recorrentes e previsíveis. Ele confere códigos, repete preços, registra solicitações, calcula descontos já tabelados e responde dúvidas básicas que poderiam estar organizadas em processos claros. Segundo a McKinsey & Company, equipes comerciais B2B podem gastar até 60% do tempo em atividades operacionais quando não contam com fluxos estruturados e automação adequada, um dado que ajuda a dimensionar o tamanho da distorção.

No setor de autopeças, essa realidade é ainda mais sensível, já que se trata de um mercado com alto volume de unidades de manutenção de estoque, recorrência de pedidos e grande pressão por preço e prazo. O profissional que deveria analisar o giro da carteira, identificar oportunidades de venda adicional, negociar melhores condições e desenvolver contas estratégicas acaba atuando como um “balcão humano”, resolvendo urgências em vez de construir crescimento sustentável.

O resultado é um paradoxo perigoso, em que o time trabalha muito, mas o crescimento não escala na mesma proporção. Negociações estratégicas ficam para depois, clientes com potencial de expansão recebem pouca atenção e o aumento de ticket médio ocorre mais por inércia do que por planejamento. A empresa cresce em volume, mas não necessariamente em qualidade de receita.

Outro efeito colateral é a dependência excessiva da figura do vendedor. Quando ele não está disponível, o pedido atrasa; quando entra de férias, a operação perde ritmo; se sai da empresa, parte do histórico e do vínculo com o cliente vai junto. A estrutura se fragiliza e o mercado percebe. Em ambientes competitivos, essa vulnerabilidade abre espaço para a troca silenciosa de fornecedor.

Há ainda um impacto menos visível, em que se a maior parte da energia do time está concentrada em tarefas de baixo valor agregado, sobra pouco espaço para abrir novas frentes, mapear oportunidades regionais ou estruturar estratégias de expansão. O crescimento passa a depender quase exclusivamente da carteira atual, limitando o ganho de participação de mercado.

Redefinir o papel do vendedor passa a ser necessidade estratégica, em que pedidos simples e recorrentes podem seguir fluxos padronizados, com regras comerciais aplicadas e validações integradas, preservando o contato humano para momentos decisivos. O vendedor deve atuar onde realmente gera valor: negociação complexa, orientação técnica, gestão de contas-chave e desenvolvimento de relacionamento de longo prazo.

O cliente B2B valoriza autonomia, previsibilidade e agilidade. Quando consegue consultar disponibilidade, verificar condições comerciais e formalizar pedidos de forma organizada, a experiência melhora e a confiança aumenta. A tecnologia, nesse contexto, não substitui o relacionamento; ela elimina ruídos que desgastam a operação e liberam espaço para conversas mais estratégicas.

Portanto, vender envolve estratégia, leitura de mercado, capacidade de negociação e visão de crescimento sustentável. Empresas que estruturam processos e liberam o time comercial do excesso operacional ganham escala com consistência, protegem margens e reduzem riscos. As que confundem movimento com resultado podem até continuar ocupadas, mas seguirão desperdiçando o ativo mais caro da operação: o tempo comercial.

*Rafael Calixto é especialista em vendas B2B, com vasta experiência em modernização de processos comerciais, integração de tecnologia nas vendas, idealizador de soluções com Agentes Inteligentes de Pedidos (AIP) para vendas B2B em escala e CEO da Zydon.

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