No dia 29 de março, acontecerá em São Paulo a 6ª edição da Caminhada do Silêncio pelas Vítimas de Violência do Estado. Tendo como mote “aprender com o passado para construir o futuro”, o ato tem concentração às 16h, em frente ao antigo Destacamento de Operações de Informações do Centro de Operações de Defesa Interna, o DOI-Codi/SP – na rua Tutóia na Vila Mariana, um dos mais atuantes centros de tortura, desaparecimento forçado e assassinato de perseguidos políticos do país durante a ditadura militar brasileira (1964-1985).
A caminhada reúne centenas de pessoas que acompanham o cortejo em silêncio absoluto. Um silêncio preenchido de forte indignação e saudade, uma ferida aberta e crônica. É realmente impactante! O destino é o Monumento em Homenagem aos Mortos e Desaparecidos Políticos, no Parque Ibirapuera, que pretende reforçar a continuidade da luta por memória, verdade, justiça e reparação, em contexto de importantes oportunidades para resolver questões de nosso passado e de nossa história de violência e impunidade.
Para Maurice Politi, ex-preso político e diretor executivo do Núcleo de Preservação da Memória Política – NM, que realiza o evento junto ao Instituto Vladimir Herzog,“A Caminhada do Silencio realizada anualmente em São Paulo. desde o ano de 2019, é um ato de civismo para que violências como as que ocorreram no passado não se repitam e para que as do presente não sejam ignoradas “.
Rogério Sotilli, diretor executivo do Instituto Vladimir Herzog “ A Caminhada do Silêncio nasce como uma resposta coletiva ao autoritarismo e às tentativas de apagamento. Após cinco edições, queremos retomar o sentimento que originou essa manifestação. Temos vivido tempos em que a defesa do Estado democrático de Direito ficou muito delegada às mais altas instituições, mas seguimos enfrentando ataques graves contra a democracia. Por isso, este é o momento de dizermos que estamos na rua, de voltarmos a demonstrar nossa força e de por fim a cultura da impunidade, herança da ditadura e das violências de ontem e de hoje.
A Caminhada do Silêncio reúne diversas organizações da sociedade civil e movimentos sociais. O ato contará também com a presença de familiares de vítimas de violência do Estado, do passado ditatorial e do presente, defensores de direitos humanos e figuras públicas comprometidas com a memória histórica do país.”
Um Estado que mata
Em 2025, o Brasil registrou 34.086 mortes violentas intencionais (homicídios, feminicídios, latrocínios e lesões corporais seguidas de morte), uma queda de 11% em relação a 2024, segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública. Apesar da queda geral, o país bateu recorde de feminicídios, com 1.470 mulheres assassinadas por razões de gênero.
Apenas em janeiro de 2026, foram registrados 947 novos casos de feminicídio no Judiciário brasileiro. O número é 3,49% maior do que no mesmo período de 2025, quando foram notificados 915 casos. Já os de violência doméstica ultrapassaram 99 mil processos. Os dados estão no Painel de Estatísticas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), que registra os indicadores do Judiciário.
Quando falamos de números históricos como os mortos e desaparecidos durante a ditadura militar brasileira, a Comissão Nacional da Verdade (CNV) confirma, em seu relatório final (2014), 434 mortes e desaparecimentos de vítimas da ditadura militar no país. Entre essas pessoas, 210 continuam desaparecidas.
Dentro deste espectro, em fevereiro de 2026, o Ministro do STF, Flávio Dino, votou por afastar a aplicação da Lei da Anistia aos casos que envolvam crimes permanentes como o de ocultação de cadáver. Ou seja, para que a Justiça Federal volte a tramitar os processos criminais contra dois ex-agentes da ditadura militar: o tenente-coronel Lício Augusto Ribeiro Maciel, que atuou na linha de frente da repressão à Guerrilha do Araguaia, maior movimento de resistência armada rural à ditadura militar; e o delegado Carlos Alberto Augusto, conhecido pela alcunha de Carlinhos Metralha.
Dino sugeriu a seguinte tese de repercussão geral:
“A Lei nº. 6.683/79 (Lei da Anistia) não se aplica aos crimes de natureza permanente — incluindo os crimes de ocultação de cadáver (art. 211 do CP) e de sequestro (art. 148 do CP) — cujas execuções se iniciaram antes da sua vigência, mas permaneceram em curso após o período compreendido em seu art. 1º (2 de setembro de 1961 a 15 de agosto de 1979)”.
O evento é uma realização do Movimento Vozes do Silêncio, representado pelo Núcleo de Preservação da Memória Política e pelo Instituto Vladimir Herzog. Conforme a Lei nº 17.886, de autoria do deputado estadual Antonio Donato (PT), o evento faz parte do calendário oficial da cidade de São Paulo.
SERVIÇO
6ª Caminhada do Silêncio
Data: 29 de Março de 2026
Local da concentração: Em frente ao antigo DOI-Codi (Rua Tutoia, 921, Vila Mariana) às 16h, com início da caminhada às 17h.
Encerramento: Monumento em Homenagem aos Mortos e Desaparecidos Políticos (próximo ao Portão 10 do Parque Ibirapuera – Av. Pedro Álvares Cabral, s/n, Vila Mariana)
A Agência Jacarandá é responsável pela comunicação da ONG Núcleo de Preservação da Memória Política e parceira do Instituto Vladimir Herzog na realização do evento.








