Carregamento Megawatt: o futuro dos caminhões e ônibus elétricos

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Pesquisador do Lactec aponta desafios e oportunidades da tecnologia que promete viabilizar o transporte pesado de longa distância

O setor de mobilidade elétrica se prepara para um salto tecnológico que pode redefinir os contornos do transporte pesado no Brasil e no mundo. O Megawatt Charging System (MCS), um novo padrão internacional de carregamento ultrarrápido, promete eliminar uma das principais barreiras para a eletrificação de caminhões e ônibus: o tempo de recarga.

Enquanto os atuais carregadores CCS2, utilizados pela maioria dos veículos elétricos leves e pesados, operam com potência média de 350 até 400 kW, o MCS é projetado para alcançar até 3,5 megawatts (MW) – cerca de dez vezes mais rápido. Com essa capacidade, a promessa é que um veículo de transporte de grande porte possa carregar de 20% a 80% da bateria em menos de 30 minutos. A tecnologia exige cabos e conectores refrigerados a líquido para suportar as altas correntes, mas mantém a ergonomia e a segurança no manuseio, semelhante aos carregadores rápidos já conhecidos.

Energia renovável e o novo padrão 
Tendo em vista que, segundo a Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), o mercado de veículos eletrificados leves no Brasil encerrou 2025 com quase 224 mil unidades vendidas e crescimento de 26% sobre 2024, a chegada do MCS é positiva. Com uma matriz elétrica majoritariamente renovável e dimensões continentais, o país possui condições favoráveis para evoluir a infraestrutura de pontos de recarga, especialmente para o transporte de cargas.


“O Brasil pode aproveitar este momento para incentivar o uso de veículos elétricos fazendo uma composição com fontes renováveis. Todavia, há que se ter políticas públicas para este cenário evoluir e permitir maior integração”, afirmou Carlos Gabriel Bianchin, Coordenador da Unidade Embrapii e pesquisador do Lactec — um dos principais centros de pesquisa, tecnologia e inovação do país. Ele destaca a complexidade e a necessidade de participação de múltiplos atores para que a transição ocorra de forma eficaz.

A tecnologia MCS, que já começa a sair do papel na Europa com a abertura dos primeiros corredores públicos, está sendo estudada no Brasil. O Lactec já iniciou um projeto que inclui análises sobre o novo padrão de conector.

“Esse carregamento ainda não foi implementado comercialmente no Brasil. No Lactec, estamos iniciando estudos envolvendo o plugue MCS”, explica Carlos Gabriel Bianchin, indicando que os primeiros passos em direção à tecnologia já estão sendo dados no meio científico e tecnológico nacional.

Desafios 
Apesar dos benefícios da nova tecnologia, a transição para o MCS no Brasil, assim como a melhoria da infraestrutura dos pontos de recarga, não será imediata e dependerá da superação de obstáculos estruturais. A falta de padronização nos sistemas de pagamento e a multiplicidade de aplicativos para acesso aos carregadores são um dos gargalos para a experiência do usuário atualmente. “A quantidade de app para gerir as cargas e fazer as cobranças é que demanda muita adaptação por parte dos usuários. Isto indica que não há interoperabilidade entre tais sistemas”, explica o pesquisador do Lactec.

Além disso, a chegada de carregadores ultrarrápidos esbarra na capacidade das baterias dos veículos e na própria particularidade da rede elétrica. “Precisamos de veículos que aceitem maior carga, ao mesmo tempo que os eletropostos também devem ter capacidade de recarga mais elevada. Já a rede de energia é mais uma questãoa de negócio do que técnico, pois grandes blocos de potência demandam maior investimento e maior custo operacional”, analisa Carlos Gabriel Bianchin.

CCS2 e MCS
Para os próximos anos, a expectativa é que os dois padrões convivam. O CCS2, mais acessível e consolidado, continuará sendo a solução preferencial para carregamentos noturnos em pátios e durante a carga e descarga de mercadorias. 

Já o MCS poderá ser a opção para paradas rápidas em rodovias, em que o tempo de atividade é crucial. Os futuros caminhões elétricos já estão sendo projetados pelas fabricantes para oferecer ambas as opções de conectores, garantindo flexibilidade máxima aos operadores. Essa configuração dual permitirá que um mesmo veículo utilize a infraestrutura de carga noturna em seu pátio (CCS2) e os corredores de alta velocidade nas estradas (MCS).

Enquanto o mundo dá os primeiros passos com a implantação de corredores MCS na Europa, com planos de atingir 1.700 pontos de alta potência até 2027, o Brasil observa e se prepara.  

A tecnologia, que deve chegar aos caminhões fabricados globalmente a partir de meados de 2026, coloca o país diante de uma oportunidade única para, impulsionado por sua matriz energética limpa, construir uma infraestrutura de carregamento alinhada ao futuro do transporte sustentável.

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