Dia Nacional do Orgulho de ser respeitado e acolhido como Autista chama a atenção para as diferenças e a inclusão também durante a Copa do Mundo

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Criado por pessoas autistas e lembrado em 18 de junho, o Dia Nacional do Orgulho Autista nasceu de uma necessidade de valorização da neurodiversidade e do combate aos estigmas que ainda pairam sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA). A data tem como objetivo ampliar a conscientização da sociedade sobre os direitos, potencialidades e desafios enfrentados por milhões de pessoas autistas.

No Brasil, dados do Censo 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontam que cerca de 2,4 milhões de pessoas declararam ter recebido diagnóstico de autismo, número que corresponde a aproximadamente 1,2% da população.

A psicóloga e colunista da Revista Autismo, Paula Ayub, destaca que a sociedade precisa compreender que não existe um único perfil de autista. “Quem conhece uma pessoa autista conhece uma pessoa autista, não conhece o autismo. Estamos falando de uma deficiência invisível e plural”. Sobre os diferentes níveis de suporte, ela esclarece: “Os níveis de suporte são as diferentes necessidades de cada autista. Tem pessoas que necessitam de suporte praticamente 24 horas por dia e há aquelas que necessitam de um suporte menor. O que é certo é que pessoa autista necessita de algum tipo de suporte. Se não precisa, não é autista”.

Por suporte, podemos entender um quadro de avisos ou de tarefas a serem cumpridas, uma assistente virtual que desperte para cada atividade que precisa ser iniciada ou que lembre o fim de um descanso, entre outros auxílios, sempre com alguma outra pessoa intermediando ou mediando o uso das ferramentas.

O crescimento dos diagnósticos durante os últimos anos é explicado pela psicóloga como sendo fruto do avanço no conhecimento científico, maior acesso à informação e uma compreensão mais ampla sobre as diferentes formas de manifestação do espectro. “Atualmente, existe um maior entendimento do quadro e, além disso, passamos a ver o quanto as mulheres, por exemplo, foram invisibilizadas. A gente não conseguia ver o autismo feminino por uma questão cultural, de gênero. O fenótipo do autismo feminino é muito diferente do masculino”, esclarece.

Com a aproximação da Copa do Mundo, a discussão sobre inclusão ganha ainda mais relevância. Para muitas pessoas autistas, o período pode representar um desafio devido ao excesso de estímulos sensoriais, como fogos de artifício, buzinas, gritos, clima de tensão e aglomerações.

“A principal orientação é respeitar as individualidades. Cada autista tem necessidades diferentes. Alguns preferem acompanhar os jogos em ambientes mais tranquilos, outros utilizam abafadores de som, óculos escuros ou brinquedos antiestresse. O importante é perguntar à própria pessoa o que ela precisa e respeitar essa necessidade”, orienta Paula.

A psicóloga recomenda ainda que famílias, estabelecimentos comerciais e espaços públicos disponibilizem locais de descompressão, com poucos estímulos visuais e sonoros, permitindo que a pessoa possa se autorregular sempre que necessário.

“Não podemos presumir que todos vão querer participar das comemorações da mesma forma. Respeitar o momento de se afastar, evitar abraços inesperados, reduzir estímulos excessivos e oferecer ambientes acolhedores são atitudes fundamentais para uma torcida verdadeiramente inclusiva”, completa.

Orgulho do sujeito e não do diagnóstico

Juliane de Araújo, mãe de Geraldo, de 16 anos, ressalta que o orgulho não está no diagnóstico em si, mas na pessoa que o filho se tornou. “Tenho orgulho do Geraldo exatamente como ele é. Ele é estudioso, dedicado, tem seus amigos e seus sonhos. O autismo faz parte dele, mas não o define.” O próprio Geraldo compartilha dessa visão. “Eu não tenho necessariamente orgulho do autismo. Tenho orgulho de ser o Geraldo. O autismo é uma das minhas características, mas o que me faz sentir orgulho é quem eu sou.”

Apaixonado por futebol, Geraldo já se prepara para acompanhar a Copa do Mundo à sua maneira. Sensível a ruídos intensos e aglomerações, ele costuma assistir às partidas em ambientes mais tranquilos e utiliza fones de ouvido quando sabe que haverá muito barulho. “Eu gosto muito de futebol, mas prefiro assistir no meu canto, sem muita muvuca”, conta.

Juliane explica que o aprendizado é constante. “Todo dia a gente descobre alguma coisa nova. A convivência nos ensina a entender melhor as necessidades dele e a enxergar o mundo por outras perspectivas. É um aprendizado diário que nos torna mais empáticos e conscientes.”

Neste Dia Nacional do Orgulho Autista, especialistas e famílias reforçam uma mensagem simples, mas essencial: este não é um dia para se comemorar o fato de ser autista, nem para dar parabéns. É um dia para propagar informação correta, coerente, que conscientize e ajude a diminuir o preconceito e as visões equivocadas.

Para Wolf Kos, presidente do Instituto Olga Kos, que há 19 anos desenvolve projetos para pessoas com diversos tipos de deficiência, a inclusão começa pelo respeito. “Seja durante a Copa do Mundo ou em qualquer outro momento, reconhecer as individualidades e garantir que cada pessoa possa participar da sociedade da forma que lhe for mais confortável é o caminho para uma convivência mais justa e acolhedora”.

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