Tem uma cena que se repete no país inteiro e que, vista de longe, é meio sem pé nem cabeça: gente adulta, com emprego, boleto e filho para criar, largando a vida para ver onze sujeitos correndo atrás de uma bola. Não rende nada, não resolve nada, ninguém fica mais rico nem mais magro por causa de um gol. E mesmo assim metade do Brasil organiza a semana em função disso. Torcer parece ser uma das poucas coisas que a gente ainda faz sem precisar de motivo “produtivo” aparente.
Eu estudo há anos uma ideia que, lá fora, atende pelo nome de Play. É a nossa capacidade de fazer algo pelo simples prazer de fazer, sem que aquilo tenha de servir para alguma coisa. A criança entende isso de berço. O adulto desaprende aos poucos, à medida que vai sendo convencido de que cada minuto do dia precisa ter uma utilidade. O descanso vira “recarregar as energias para render mais”, o hobby, com sorte, vira “renda extra”, e até o Play do filho a gente terceiriza para uma escolinha que promete desenvolver competências. Nesse mundo, parar tudo para ver um jogo é quase um pequeno ato de rebeldia: por noventa minutos, você faz uma coisa sem a menor serventia, e ela ainda assim importa.
Quem está dentro de campo vive isso de forma mais intensa. No meio de uma partida, não dá para ficar pensando na conta que vence amanhã. O lance é agora, a decisão sai em frações de segundo, o corpo responde antes de a cabeça raciocinar. Os psicólogos deram um nome bonito para esse mergulho no instante e o chamaram de Flow, aquele estado em que a pessoa fica tão envolvida no que faz que o relógio some e o resto do mundo, dívidas inclusive, fica esperando do lado de fora. Pode acontecer cozinhando, tocando violão, mergulhando. No futebol, acontece o tempo. Quanto melhor o flow, melhor é você no jogo. Mais entrega, mais presença.
A maior lição do jogo, no entanto, é menos animadora e mais honesta: você pode fazer tudo certo e perder do mesmo jeito. Treina, se posiciona, chuta com capricho, e a bola bate na trave. O futebol é um professor severo disfarçado de diversão, porque ensina cedo a diferença entre o que está nas suas mãos e o que não está, já que o passe depende de você e o resultado nunca dependeu. Quem joga a vida toda aprende a errar sem se despedaçar, não por ser mais forte que os outros, mas porque já entendeu que controlar tudo jamais foi possível e que ainda dá para se divertir no meio da incerteza.
Junte a isso o que costuma ser a parte mais esquecida da história: o futebol reúne gente. Dentro de um time, você passa a fazer parte de uma turma que conta com você, sente sua falta quando você some e comemora e xinga junto. Num tempo em que solidão e esgotamento andam virando epidemia, isso vale mais do que qualquer aplicativo de meditação. E o vínculo não fica preso a quem joga. Quando chega uma Copa do Mundo, a cidade inteira para, vizinhos que nunca trocaram um bom-dia se abraçam, e gente que discorda de tudo passa a torcer pela mesma coisa. Por algumas horas, o país lembra que ainda sabe sentir junto.
Nada disso passou despercebido por quem vive de vender. Hoje o futebol é negociado por centímetro quadrado: a camisa virou outdoor ambulante, a placa atrás do gol pisca patrocinador, o intervalo é “oferecido por”, e mal a bola cruza a linha lateral já aparece uma casa de aposta lembrando você de apostar. Tudo virou informe e conversão, cada brecha disputada como espaço publicitário. E mesmo assim, teimosamente, os noventa minutos continuam escapando. No instante em que a bola entra no ângulo, ninguém lembra de patrocinador nenhum. Por mais que tentem preencher cada detalhe do jogo com os seus informes, o futebol ainda consegue ser um dos últimos refúgios de entretenimento no meio do atropelo da produtividade.
Volta e meia aparece a ideia de que o oposto do Play seria o trabalho, mas quem convive com gente adoecida sabe que o verdadeiro oposto do Play é a tristeza funda, aquele estado em que nada mais chama, nada mais diverte e tudo vira obrigação. É por isso que insisto que jogar não é frescura nem desperdício de tempo, e sim assunto de saúde mental. O adulto que perdeu de vez a vontade de jogar não ficou mais sério nem mais maduro. Na maioria das vezes, só ficou mais cansado e mais perto de adoecer.
O futebol, no fim das contas, nos faz um favor silencioso. Por um instante ele nos tira da obrigação de só fazer o que dá retorno e nos devolve ao prazer de fazer porque sim. Numa vida organizada em torno de metas, planilhas e prazos, reservar um pedaço do dia para uma coisa tão maravilhosamente inútil quanto uma bola rolando num gramado é um bom sinal de que a cabeça ainda está no lugar. Cabeça saudável é a que nunca esqueceu como se joga.








