Entre a Política e a Diplomacia: o Brasil precisa negociar interesses, não narrativas

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A recente escalada das tarifas impostas pelos Estados Unidos a produtos brasileiros evidencia uma realidade que os profissionais de comércio exterior conhecem há décadas: no comércio internacional, raramente as decisões são apenas econômicas. Elas são, sobretudo, geopolíticas.

Quando uma potência utiliza tarifas como instrumento de pressão, não está apenas discutindo balança comercial. Está defendendo interesses estratégicos, fortalecendo sua posição internacional e ampliando sua capacidade de influência. Foi exatamente isso que ocorreu na atual disputa entre Brasil e Estados Unidos.

O governo norte-americano transformou a política comercial em uma ferramenta de negociação. Não é a primeira vez que isso acontece. Durante sua trajetória política, Donald Trump demonstrou que considera tarifas um instrumento legítimo para obter concessões econômicas, industriais e estratégicas. Gostemos ou não desse modelo, ele segue uma lógica clara: negociar a partir da força.

O Brasil, por outro lado, respondeu priorizando argumentos jurídicos, princípios de soberania e discursos políticos internos. Esses elementos possuem legitimidade e são importantes para qualquer Estado democrático. Entretanto, nas relações comerciais internacionais, razão jurídica nem sempre produz resultados diplomáticos.

A história do comércio internacional demonstra que grandes acordos são construídos pela convergência de interesses, não pela vitória de argumentos.

Diplomacia econômica exige pragmatismo

Ao longo de mais de três décadas atuando em comércio exterior e logística internacional, aprendi que negociações bem-sucedidas raramente terminam com um vencedor absoluto. Os melhores acordos são aqueles em que ambas as partes encontram benefícios suficientes para justificar suas concessões.

Diversos países compreenderam rapidamente essa dinâmica durante as negociações comerciais com os Estados Unidos. Reino Unido, Japão, União Europeia e Índia buscaram preservar seus setores estratégicos enquanto apresentavam propostas capazes de atender parte das demandas americanas.

O Brasil poderia ter explorado oportunidades semelhantes.

Setores como etanol, minerais críticos, cooperação tecnológica, propriedade intelectual e investimentos em cadeias produtivas representam áreas onde existem interesses convergentes entre os dois países. Nenhuma dessas negociações exigiria abrir mão da soberania nacional ou aceitar interferências institucionais. Pelo contrário, poderiam fortalecer a competitividade brasileira e ampliar investimentos.

Essa é justamente a essência da diplomacia econômica: identificar interesses comuns antes que divergências políticas ocupem todo o espaço da negociação.

Política interna e relações internacionais não seguem a mesma lógica

Existe uma diferença importante entre o discurso político destinado ao eleitorado doméstico e a condução das negociações internacionais.

Na política interna, posicionamentos firmes costumam produzir ganhos eleitorais. Na diplomacia, excessos retóricos frequentemente reduzem o espaço para construir soluções.

Quando ambos os lados transformam uma negociação comercial em disputa política, o ambiente torna-se mais rígido, diminuindo a flexibilidade necessária para encontrar alternativas.

Quem perde são as empresas.

Quem perde são os exportadores.

Quem perde são os empregos ligados às cadeias internacionais de produção.

Guarulhos sente diretamente esses impactos

Poucas cidades brasileiras representam tão claramente a inserção do Brasil no comércio internacional quanto Guarulhos.

Nosso município abriga o maior aeroporto de cargas da América Latina, concentra operadores logísticos, despachantes aduaneiros, transportadoras, agentes de carga, centros de distribuição e milhares de empresas integradas às cadeias globais de suprimentos.

Cada barreira comercial imposta ao Brasil afeta diretamente esse ecossistema.

Redução das exportações significa menor movimentação logística, menor utilização da infraestrutura aeroportuária, redução de investimentos e perda de competitividade para empresas instaladas na região.

Por isso, discussões sobre tarifas internacionais não são temas distantes de Brasília ou Washington. Elas impactam empregos, investimentos e oportunidades aqui mesmo, em Guarulhos.

O momento exige diplomacia de alto nível

O Brasil possui tradição diplomática reconhecida mundialmente. O Itamaraty sempre foi respeitado pela capacidade técnica de seus negociadores e pela habilidade em construir consensos.

Neste momento, essa tradição precisa ser fortalecida.

Ainda existem oportunidades para ampliar o diálogo com o setor privado norte-americano, construir soluções específicas por cadeia produtiva, negociar exceções tarifárias e desenvolver agendas positivas em áreas estratégicas como energia, minerais críticos, sustentabilidade, inovação e infraestrutura logística.

Mais do que vencer um debate político, o objetivo deve ser preservar mercados, fortalecer empresas brasileiras e ampliar nossa inserção internacional.

O futuro do comércio internacional será cada vez mais geopolítico

Vivemos uma nova fase da economia mundial.

As disputas comerciais deixam de ser apenas questões tarifárias e passam a envolver segurança nacional, tecnologia, cadeias de suprimentos, energia, minerais estratégicos, inteligência artificial e reposicionamento industrial.

Nesse cenário, competitividade dependerá não apenas da eficiência das empresas, mas também da capacidade dos governos em exercer uma diplomacia econômica moderna, técnica e pragmática.

O Brasil possui recursos naturais, capacidade produtiva, mercado consumidor e uma posição geográfica privilegiada para desempenhar papel relevante nessa nova ordem internacional.

Entretanto, transformar essas vantagens em oportunidades dependerá menos dos discursos e mais da qualidade das negociações.

No comércio exterior, defender interesses nacionais não significa fechar portas.

Significa saber quais portas precisam permanecer abertas para que empresas, trabalhadores e toda a economia brasileira continuem crescendo.

Essa é a verdadeira função da diplomacia econômica: transformar diferenças em oportunidades e interesses em acordos duradouros.

José Vitorelli- Especialista em Comércio Exterior, Logística Internacional e Desenvolvimento de Negócios

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