Com alta dos afastamentos por transtornos mentais no Brasil, treinamento amplia a capacidade de acolhimento entre colaboradores, reduz o estigma e fortalece a saúde ocupacional, destacam especialistas da Esset e Employer Recursos Humanos
A saúde mental deixou de ser um tema restrito aos consultórios para ocupar um lugar estratégico dentro das empresas. Diante do aumento dos casos de ansiedade, depressão e esgotamento profissional, primeiros socorros em saúde mental vêm se consolidando como uma ferramenta para promover ambientes de trabalho mais seguros, acolhedores e preparados para lidar com situações de sofrimento psíquico.
O avanço dessas iniciativas acompanha uma mudança no cenário brasileiro. Dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT), com base no SmartLab, mostram que o número de benefícios por incapacidade temporária concedidos por transtornos mentais passou de 201 mil em 2022 para 472 mil em 2024, um crescimento de 134% em apenas dois anos. Entre os afastamentos acidentários relacionados à saúde mental, as principais causas são reações ao estresse (28,6%), transtornos de ansiedade (27,4%) e episódios depressivos (25,1%).
Diferentemente de um tratamento psicológico ou psiquiátrico, os primeiros socorros em saúde mental consistem em um acolhimento inicial e imediato, oferecendo apoio à pessoa em sofrimento até que ela consiga acessar atendimento especializado. A prática busca preservar a vida, oferecer suporte e reduzir o risco de agravamento das crises emocionais.
A saúde mental entra de vez na agenda das empresas
Para Francielli Vitali, Head de Negócios da Esset – Employer Saúde e Segurança do Trabalho, investir em saúde mental deixou de ser uma iniciativa complementar para se tornar parte da estratégia das organizações.
“Os Primeiros Socorros em Saúde Mental promovem um ambiente onde as pessoas se sentem mais seguras para falar sobre suas dificuldades e buscar ajuda. As empresas que investem nessa capacitação observam aumento do conhecimento em saúde mental, redução do estigma e maior confiança entre os colaboradores para oferecer suporte uns aos outros. Hoje, saúde mental é parte da saúde ocupacional e precisa estar integrada à estratégia da organização.”
Segundo a especialista, um dos principais desafios é transformar ações pontuais em uma cultura permanente de cuidado. Embora qualquer colaborador possa receber o treinamento, lideranças e equipes de Recursos Humanos ocupam posição estratégica por estarem na linha de frente da gestão de pessoas.
“Não basta tratar o tema como uma exigência de compliance. É preciso incorporar os primeiros socorros em Saúde Mental à cultura organizacional, fortalecendo a segurança psicológica e entendendo que o bem-estar das pessoas é um dos pilares da produtividade e da sustentabilidade do negócio.”
Lideranças são a primeira linha de apoio
Além da capacitação dos colaboradores, a atuação das lideranças é considerada um dos fatores mais importantes para identificar precocemente sinais de sofrimento emocional e estimular um ambiente de confiança. Mudanças persistentes de comportamento, como queda de produtividade, isolamento, irritabilidade, desânimo ou alterações emocionais frequentes, podem indicar que um colaborador precisa de apoio.
A orientação é que a abordagem seja feita com empatia, escuta ativa e perguntas abertas, respeitando sempre a privacidade da pessoa. O papel da liderança é acolher e facilitar o acesso aos canais de apoio, sem assumir funções de diagnóstico ou tratamento.
Para a Dra. Letícia Pereira, advogada trabalhista da Employer Recursos Humanos, esse cuidado acompanha uma transformação nas relações de trabalho e nas responsabilidades das organizações.
“A construção de ambientes psicologicamente seguros deixou de ser apenas uma boa prática e passou a integrar as discussões sobre saúde ocupacional, gestão de pessoas e responsabilidade corporativa. O papel do líder é acolher e encaminhar, nunca diagnosticar ou tratar. Esse equilíbrio preserva a autonomia do colaborador, respeita sua privacidade e fortalece uma cultura organizacional baseada no cuidado.”
Em situações de crise, os primeiros socorros orientam colaboradores e gestores a reconhecer sinais como taquicardia, falta de ar, tremores, cansaço intenso, choro descontrolado, confusão mental, irritabilidade ou sensação de perda de controle. A recomendação é ouvir sem julgamentos, manter a calma, demonstrar disponibilidade para ajudar e evitar minimizar o sofrimento ou pressionar a pessoa a falar.
Prevenção deixa de ser benefício e passa a fazer parte da estratégia
Além de fortalecer o bem-estar das equipes, programas estruturados de primeiros socorros em saúde mental contribuem para ampliar as redes de apoio entre colaboradores, melhorar a gestão da carga mental e favorecer a recuperação após situações de crise.
Os resultados também dialogam com um cenário global. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) e a OIT, cerca de 15% da população economicamente ativa convive com algum transtorno mental. Depressão e ansiedade são responsáveis pela perda de aproximadamente 12 bilhões de dias de trabalho por ano em todo o mundo, gerando um impacto estimado em US$1 trilhão anuais em perda de produtividade.
Para os especialistas, esses indicadores reforçam que iniciativas voltadas à saúde mental precisam fazer parte da estratégia permanente das empresas e não apenas de campanhas sazonais. Mais do que oferecer respostas diante das crises, a proposta dos primeiros socorros em Saúde Mental é fortalecer uma cultura de acolhimento, reduzir o estigma e criar ambientes onde as pessoas se sintam seguras para pedir ajuda quando necessário.








