De acordo com especialista da UniCesumar, a participação do pai na primeira infância ganha espaço nas organizações, influencia modelos de liderança e reforça debates sobre flexibilidade no trabalho e retenção de talentos
Durante muito tempo a paternidade, para alguns, esteve associada ao papel de provedor financeiro. Contudo, hoje, esse conceito passa por uma transformação e já produz reflexos no mercado de trabalho. Cada vez mais homens buscam participar ativamente da criação dos filhos, reorganizam prioridades profissionais, empreendem em busca de maior flexibilidade ou pressionam empresas a reverem políticas de licença-paternidade, jornadas de trabalho e modelos de gestão. O resultado é uma mudança que ultrapassa o ambiente familiar e influencia estratégias de retenção de talentos, cultura organizacional e desenvolvimento de lideranças.
“Apesar de extremamente significativa, essa não é uma mudança fácil de acontecer, levando em consideração o exemplo cultural herdado de outras gerações. Ela acontece de forma estrutural, com um processo de ressignificação da identidade masculina. O homem deixou de ser visto apenas como provedor da casa e passa a buscar reconhecimento também pela qualidade das relações que constrói dentro da família. Esse movimento ganha força à medida que as mulheres ocupam um papel cada vez mais relevante no mercado de trabalho e compartilham a responsabilidade pela sustentação financeira da casa”, explica Luciane Centenaro, professora do curso de Psicologia da UniCesumar Curitiba (PR).
Esse movimento acompanha uma nova compreensão sobre os impactos da presença paterna na primeira infância. Ao menos é o que revela o resultado de um estudo sobre o tema pela Universidade de Oxford, no Reino Unido, em que foi constatado que crianças apresentam trajetórias de desenvolvimento mais saudáveis, levando em consideração desde os primeiros meses de vida, quando os pais participam ativamente dos cuidados. Outros fatores revelados são que o desenvolvimento emocional e cognitivo são favorecidos a partir dessa interação e o ganho para a relação familiar é a redução da sobrecarga materna.
Mudanças no mercado de trabalho
Essa transformação também repercute na forma como muitos profissionais conduzem suas carreiras, já que em diferentes setores, cresce o número de pais que optam por empreender para conquistar maior autonomia sobre a agenda ou que passam a valorizar empresas com políticas mais flexíveis. Ao mesmo tempo, organizações começam a perceber que benefícios voltados à parentalidade deixaram de ser apenas uma pauta de bem-estar e passaram a integrar estratégias de atração e retenção de talentos.
“Entre as iniciativas que ganham espaço estão a ampliação da licença-paternidade, jornadas flexíveis, trabalho híbrido, programas de apoio à parentalidade e ambientes que incentivam homens a exercerem esse papel sem receio de impactos negativos na carreira. Mas, não basta criar benefícios se o ambiente não permite que eles sejam utilizados com naturalidade. É preciso abrir espaço para que os homens falem sobre a rotina com os filhos, sobre a divisão das responsabilidades em casa e para que gestores alinhem expectativas durante esse período. Quando a empresa trata esse tema de forma transparente, reduz o medo da estigmatização e fortalece uma cultura organizacional mais saudável”, afirma a especialista da UniCesumar.
Competências que fortalecem a liderança
A experiência da paternidade também desenvolve competências que passaram a ser valorizadas pelas organizações. Escuta ativa, inteligência emocional, flexibilidade, gestão de conflitos e capacidade de adaptação são habilidades frequentemente fortalecidas durante a convivência com os filhos e que encontram aplicação direta em posições de liderança. “Para romper padrões e tornar-se referência para os filhos, o pai desenvolve autoconhecimento, aprende a validar emoções, aprimora a escuta e a flexibilidade cognitiva. Essas competências repercutem diretamente no ambiente corporativo, aumentando a capacidade de lidar com pressão, administrar conflitos e conduzir equipes de maneira mais equilibrada”, observa a psicóloga.
Apesar desse avanço, conciliar as demandas profissionais com a presença na rotina dos filhos continua sendo um desafio para muitos pais. A sensação de culpa e a dificuldade para estabelecer limites entre trabalho e vida pessoal ainda fazem parte da realidade de diversas famílias. “O primeiro passo é abandonar a busca pela perfeição. Muitas vezes, quinze minutos de atenção integral, sem celular ou outras interrupções, têm mais impacto do que longos períodos de convivência sem conexão verdadeira. A primeira infância é uma fase única e exige escolhas conscientes sobre como administrar o tempo”, conclui Centenaro.








