Quase dois séculos depois de Charles Darwin atravessar a Patagônia a bordo do HMS Beagle, o explorador e escritor brasileiro Marcio Pimenta percorreu sozinho 11 mil quilômetros pela Argentina e pelo Chile seguindo os rastros deixados pelo naturalista. Financiada pela National Geographic Society, a expedição deu origem a Encontrando Darwin – Uma expedição pelos confins do mundo, publicado pela Editora Solisluna.
Lançado em maio de 2026 pela editora Solisluna, Encontrando Darwin passou a circular pelo país e ganhou espaço na imprensa, com reportagens e entrevistas em veículos como Folha de S.Paulo, Veja, PublishNews, Forbes e Rádio UFMG Educativa. A repercussão chamou atenção não apenas para a dimensão da expedição, mas para a investigação que atravessa o livro: o que acontece quando permanecemos tempo suficiente em um território para permitir que ele modifique nossa maneira de enxergar o mundo?
Darwin oferece uma chave para essa investigação. A imagem que atravessou gerações é a do naturalista já consagrado, de barba branca, associado às Ilhas Galápagos e à teoria da evolução. O personagem encontrado por Pimenta é bastante diferente. Quando chegou à América do Sul a bordo do Beagle, Darwin tinha pouco mais de 20 anos, carregava dúvidas, convicções que seriam posteriormente abandonadas e uma extraordinária disposição para observar.
Antes das Galápagos, foram os fósseis encontrados na Argentina, as formações geológicas dos Andes, as paisagens da Patagônia, os animais, plantas e habitantes da América do Sul que começaram a confrontá-lo com perguntas para as quais as explicações existentes já não pareciam suficientes. É esse processo, mais do que a busca pelo Darwin consagrado, que interessa a Pimenta.
“Eu não queria encontrar o homem que já conhecia as respostas. Queria compreender o jovem que estava aprendendo a fazer as perguntas. Darwin atravessou aqueles territórios e saiu deles diferente. Essa transformação acabou se tornando uma das questões centrais da minha própria viagem.”
Uma viagem contemporânea através de diferentes tempos
Encontrando Darwin combina literatura de viagem, história da ciência e observação contemporânea. A narrativa acompanha simultaneamente duas jornadas separadas por quase dois séculos. De um lado, Darwin percorre a América do Sul entre 1832 e 1835 e registra aquilo que encontra em seus cadernos. Do outro, Pimenta atravessa alguns desses mesmos territórios em 2023 e pergunta o que mudou — e o que permanece.
A comparação conduz o livro para além da história da ciência. Povos como Yámana, Selk’nam, Kawésqar e Tehuelche aparecem não como personagens periféricos da passagem europeia pela região, mas como parte fundamental da história desses territórios. Geologia, colonização, ciência, memória e transformação ambiental passam a coexistir na mesma paisagem. A Patagônia deixa, assim, de funcionar apenas como cenário e se torna parte do argumento do livro.
“Quando viajamos rapidamente, um lugar tende a permanecer como paisagem. Quando diminuímos o ritmo e começamos a observar, percebemos que estamos atravessando diferentes camadas de tempo ao mesmo tempo. Há aquilo que vemos, aquilo que aconteceu antes de nós e aquilo que nossa própria presença naquele lugar começa a modificar.”
A experiência também transforma o próprio autor. Solidão, incerteza, decisões tomadas longe de qualquer apoio e os limites físicos e emocionais de uma longa expedição aparecem na narrativa sem a construção heroica tradicionalmente associada à exploração. Para Pimenta, essa mudança de perspectiva é também uma maneira de reconsiderar o significado contemporâneo de explorar. “A exploração não precisa ser uma história de conquista. O mundo está amplamente cartografado, mas isso não significa que esteja inteiramente compreendido. Ainda existem perguntas novas a fazer sobre lugares conhecidos.”








