“Retirar o corpo da posição original também pode representar uma dificuldade adicional para a reconstrução da dinâmica da morte”
A investigação sobre a morte da segundo-tenente da Marinha Beatriz Fickert Santoro, de 33 anos, encontrada em um alojamento do Centro Tecnológico da Marinha em São Paulo (CTMSP), dentro da Cidade Universitária da Universidade de São Paulo (USP), chama atenção para um procedimento fundamental na investigação de mortes suspeitas: a preservação do local e do corpo até a realização da perícia.
O caso ocorreu na quinta-feira (24). Segundo informações divulgadas, Beatriz foi levada ao Hospital Universitário da USP antes da realização da perícia no local onde havia sido encontrada. Ela chegou sem vida à unidade hospitalar. A ocorrência foi registrada como morte suspeita e as circunstâncias do óbito são investigadas pela Polícia Federal e pela Marinha. Segundo a polícia, o corpo apresentava hematomas nos braços e nas costas, além de sinais de que a morte teria ocorrido havia algum tempo. A causa do óbito ainda não foi divulgada oficialmente.
Para Caroline Daitx, médica especialista em Medicina Legal e Perícia Médica, a preservação da cena é importante porque permite aos peritos avaliar não apenas o corpo, mas sua relação com todo o ambiente em que foi encontrado. “Quando o corpo é retirado antes da perícia, o principal problema é perder a possibilidade de observar exatamente como aquela cena estava no momento em que a vítima foi encontrada. A posição do corpo, a relação com objetos próximos, manchas, materiais biológicos, roupas e pequenos vestígios podem ajudar a entender a dinâmica do que aconteceu”, explica.
A perita ressalta, no entanto, que não é possível afirmar que esses elementos tenham sido efetivamente perdidos no caso da tenente. As informações divulgadas até o momento não permitem essa conclusão. “O que se pode dizer é que preservar o local ajuda a manter essas informações intactas para análise”, pondera.
Segundo a especialista, retirar o corpo da posição original também pode representar uma dificuldade adicional para a reconstrução da dinâmica da morte, porque o perito deixa de observar diretamente determinadas relações entre o cadáver e a cena. “Quando o perito não vê o corpo na posição original e no ambiente em que ele foi encontrado, algumas informações deixam de estar disponíveis da mesma forma. Mas isso não quer dizer que a causa da morte não possa mais ser esclarecida. A necropsia e outros exames ainda podem fornecer dados importantes”, afirma.
Mesmo quando a cena sofreu alguma alteração, a investigação médico-legal dispõe de diferentes recursos para buscar respostas. A necropsia permite examinar lesões externas e internas, pesquisar sinais de doenças e, quando indicado, coletar amostras para exames complementares, inclusive toxicológicos.
A reconstrução também não depende exclusivamente do exame do cadáver. Fotografias eventualmente feitas no local, roupas, objetos, imagens de câmeras de segurança, registros de acesso, documentos e depoimentos podem ser confrontados com os achados médico-legais e contribuir para estabelecer uma cronologia e compreender as circunstâncias do óbito. “Ainda há muita coisa que pode ser analisada. Além da necropsia, a perícia pode avaliar roupas, objetos, fotografias do local, imagens de câmeras, depoimentos, registros de acesso e outros documentos que ajudem a reconstruir o que aconteceu”, destaca Daitx.
A médica reforça que, no caso de Beatriz, é necessário aguardar os resultados periciais antes de relacionar eventuais lesões, a retirada do corpo do alojamento ou qualquer outro elemento à causa ou à dinâmica da morte. “Como a investigação ainda está em andamento, o mais correto é aguardar os exames antes de qualquer conclusão sobre causa ou dinâmica da morte. Neste momento, também não é possível afirmar se a remoção do corpo terá impacto decisivo nas conclusões da perícia”, conclui.
Fonte: Caroline Daitx: médica especialista em medicina legal e perícia médica. Possui residência em Medicina Legal e Perícia Médica pela Universidade de São Paulo (USP). Atuou como médica concursada na Polícia Científica do Paraná e foi diretora científica da Associação dos Médicos Legistas do Paraná. Pós-graduada em gestão da qualidade e segurança do paciente. Atua como médica perita particular, promove cursos para médicos sobre medicina legal e perícia médica. CEO do Centro Avançado de Estudos Periciais (CAEPE), Perícia Médica Popular e Medprotec. Autora do livro “Alma da Perícia”. Doutoranda do departamento de patologia forense da USP Ribeirão Preto.








